"A minha vida não foi aproveitada. A minha vida sempre foi muito triste. Nas horas em que eu mais queria pensar, eram as alturas em que tinha que estar a trabalhar naquele escritório abafado com o cheiro a tabaco da funcionária que lá trabalhava também. Nas horas em que estava disposta a trabalhar com todas as minhas garras, eu falhava, e só sabia pensar e pensar...
Estava farta da vida. Estava farta de viver os dias com angústia, não sabia mesmo aproveitar estando com as pessoas que mais me amavam, seria que eu as amava também?. Quando chegava a casa e sentia o cheiro maravilhoso dos cozinhados de minha mãe, só me apetecia dormir, sem lhe ligar nenhuma. Quando me apetecia estar com ela, ela não me ligava nenhuma, pois achava que eu não merecia a atenção que eu nunca lhe dei. Sim, eu nunca dei atenção à minha família, só pensava em ganhar dinheiro, mas quando finalmente percebi que não era num escritório com montes de documentos à minha volta que eu ia ser feliz, foi tarde de mais. Quando cheguei a casa nessa noite, estafada, pronta para dar aquela atenção à minha mãe que ela nunca tinha tido da minha parte, era mesmo tarde de mais. Desmaiada no chão, minha mãe encontrava-se com olhos fechados e mãos ao peito. Decidi beijá-la, pela primeira vez beijei as bochechas de minha mãe, que pelo beijo, dera para perceber pela primeira vez que eram suaves; até que vi que ela tinha para além das mãos uma moldura ao peito, uma moldura com a minha foto! Senti-me ao mesmo tempo feliz, por minha mãe ter desmaiado com uma das minhas fotos ao peito, mas senti-me triste meia-hora depois, quando minha mãe deu entrada no hospital morta. Agora só tinha remorsos, remorsos pela primeira vez na vida, e por uma coisa tão feia, por nunca ter prestado mínima atenção à minha família e a todos aqueles que davam a vida por mim, como o meu pai e o meu irmão que também já tinham morrido sem eu nunca lhes ter dado um abraço atencioso ou qualquer outra atenção. Morreram num acidente horrível, de carro, mas eu também não chorara nesse dia. Sentia-me arrependida, também porque podia ter chamado a ambulância mais cedo, mas fiquei tão comovida e emocionada, que não tive coragem, pensei que não seria capaz de chamar a ambulância.
Estava triste, estou triste, porque nunca dei atenção àqueles que gostavam verdadeiramente de mim, dera mais atenção àquele escritório sujo, imundo.
Não aproveitei a vida, e agora aqui neste hospital, sozinha, estou a morrer de arrependimento, duvido que seja doença.
A vida é tão curta e eu não soube aproveitá-la. Quando lerem esta carta, não tenham pena de mim, porque eu sou a pessoa mais parva e má do Mundo. Quero morrer a saber que ninguém irá para o meu funeral, dêem-me esse gosto, porque eu não mereço a atenção que eu nunca dei às pessoas que me amavam verdadeiramente"
APROVEITA A VIDA

2 comentários:
Profundo*
Gostei.
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